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quinta-feira

Na Mooca, sobre o vazio

O metro é o comprimento do trajeto percorrido pela luz, no vazio, durante um intervalo de tempo de

1 /299 792 458 do segundo.





- Caro Vinícius, você me propôs conversarmos sobre o vazio. Curiosamente, não começamos nossa conversa pela definição de vazio...

- Bido, o vazio faz parte de uma gama de coisas que não podem ser definidas, assim como o amor, o momento presente, e tudo aquilo que é real. Mas existem algumas coisas que são mais inconcebíveis do que as outras, pois não foram criadas pela mente humana. Aí sua beleza e espanto.

- ...mas, anti-aristotelicamente, discutimos a ação humana frente à experiência do vazio: a fuga, a busca, o desejo. Gastamos boa parte do nosso tempo para concordarmos com a proposição de que o homem busca e deseja porque se sente vazio.

- Correto.

- E que, numa experiência de plenitude, tanto a busca como o desejo desapareceriam.

- Falar sobre a plenitude é algo muito abstrato, até porque não é possível ter consciência desse processo. Quando você tem consciência da plenitude, você não é mais pleno, porque a consciência do eu é a consciência de estar só e de ser vazio, não pleno. Sendo assim, prefiro pensar que quando a consciência atinge um estado de atenção plena, a busca e o desejo desaparecem. Isso é perfeitamente possível e ao alcance de qualquer um.

- Na plenitude, o todo abarca o “ser” e o “não-ser”, o sujeito e o objeto, o corpo e o desejo.

- Correto, mas eu posso dizer que sei o que é ser pleno, mas esse estado, como o vazio, não é objeto do conhecimento. Nesse caso, você pode viver, mas nunca poderá conhecer aquilo que vive.

- Mas, enquanto a experiência – concordamos que fugaz – de plenitude não acontece, vivemos mergulhados num mar de linguagem, pensamento e desejo, que, em última análise, busca preencher o indefinido vazio.

- A escolha das palavras é importante. A plenitude é um estado desconhecido para você, mas e se substituirmos a plenitude pela palavra realidade? Porque de fato elas são a mesma. A realidade é plena, total, absoluta. A falta e o vazio não estão na realidade, mas na mente que pensa a realidade e está em oposição a ela.

- Para você, a percepção do vazio, da implenitude, da incompletude leva o homem a uma busca incessante por aquilo que lhe falta.

- Correto.

- Porém, a plenitude só é possível na presentificação e na alteridade radical.

- ?.

- Ou seja, a plenitude só pode ser considerada numa posição independente do passado (memória) e do futuro (desejo)...

- Mais do que isso, a plenitude não pode ser considerada/concebida pela mente, ela é a realidade.

- ... numa relação de alteridade radical com o objeto, de forma a superar as armadilhas egóicas e tornar-se uno com o próprio objeto.

- Não existem armadilhas egóicas, existe somente o pensamento criando o pensador que está programado biologicamente na busca por segurança, física e psicológica. Eu sei que o normal é pensar em termos de A + B = C. Mas nesse caso, a realidade não tem sentido ou objetivo, quem os cria é a mente. A realidade apenas é, enquanto nós estamos sempre no estado de vir-a-ser. O que não pode ser diferente, considerando como a mente é constituída.

- As armadilhas do Ego, porém, não são facilmente superadas, uma vez que, embora fontes de imprecisão, são também fontes de prazer.

- O pensador/ego não é um objeto diferente do pensamento, muito menos algo a ser demonizado. Deixe isso para as religiões. Nós somos o ego. A não compreensão da mente é o que cria as armadilhas.

- Na maior parte do tempo, o prazer superficial e efêmero das ilusões toma o ser humano e o impede de experimentar a plenitude radical.

- A identificação com o bloco de memória que chamamos de eu impede de viver a realidade/plenitude, pois o eu é um produto do passado e, dessa forma, nunca poderá viver a eterna novidade da vida.

- Dessa forma, fica impossível completar-se sem antes arriscar o total esvaziamento.

- Bido, não existe ego completo ou real. O ego é sempre vazio e não tem como ser diferente. O ego querer viver a plenitude é um contra-senso. A plenitude é a ausência de pensamento/memória/ego, mas não é a ausência de consciência. É uma consciência dinâmica que não pode ser presa ou capturada pelo pensamento. Novamente, podemos falar dela como se a conhecêssemos, mas a palavra nunca será a coisa.

- Tal situação amedrontadora impede a experiência da plenitude. Assim, o que é possível experenciar – e muitas vezes isso é tomado como plenitude e satisfação – é a rede narcísica formada pela linguagem, pelo pensamento e pelo desejo.

- Isso é muito real e nunca poderemos dizer com certeza se o que vivemos é totalmente consciente, pois este que se expressa é produto do relativismo do conhecimento e da linguagem. O que podemos é viver. rs

Um comentário:

  1. Quem quiser comentar ou acrescentar pensamentos, basta incluir nos comentários.

    Abs

    Bido

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