Arrumei meu cachecol de lã em torno da gola da camisa, cruzando-o sobre o peito. A tarde esfriara e o vento trazia as gotículas da Fontana de Trevi , polvilhando de fina névoa as lentes claras de meus óculos de grau. Dobro meu livro, marcando a ponta da página com uma orelha. Senti o outono chegando a Roma, pela via Sistina, ventos do lago di Bracciano passeando pelas ruas estreitas e velhas de pedra.
Meu avô, morto há tanto tempo, perguntou-me de súbito: “Você é quem?”
“Claudinho” – respondi, com estranhamento. Eu não ouvia meu apelido familiar desde que visitara os parentes do interior, na minha juventude. “Sou o filho do seu filho”.
“Meu filho? Onde ele está?” – perguntou, agitando a cabecinha redonda sobre o pescoço esticado, como se procurasse vê-lo ao redor. Ri-me condescendente, afinal, meu avõ, desde que o conheço, era cego.
“Morreu. Faz tempo.”
“Morreu? Que pena...” – disse encolhendo-se sobre o banco de pedra.
Falávamos em italiano. Nessas ocasiões, a língua não costuma ser uma barreira. Meu avô era uma figura frágil, de corpo pequeno e cego. Quando o conheci, ele já era cego e sem dentes. Sentava-se à beira da cama, num quarto permanentemente escuro. Quando eu chegava, criança da cidade, para visitá-lo na casa grande e simples, ele tocava meu rosto e perguntava do meu pai. Tirei do bolso de meu casaco uma boina de lã preta e a arrumei sobre a cabeça nua do fantasma de meu avô. Ele sorriu confortavelmente, mas resmungou “fontana maledeta!”
Esticou sua mão, sem olhar para mim. Naturalmente, os cegos têm dificuldades para encarar.
“Me dá tua mão, figlio mio” – pediu-me e eu atendi.
Ele envolveu minhas mãos geladas e inseguras. Depois, me perguntou:
“Por que estamos tão longe de casa?”
Olhei ao redor. Roma milenar, de águas milenares. Tantos outonos ventavam em mim.
“Tão longe de casa, nono...” – respondi. “E eu nem sei por quê...”
quinta-feira
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