Muitas experiências causam cicatrizes. A ferida sangra, dói, e, passado um tempo, cicatriza. Então, torna-se metonímia. Elas indicam, com sua corporiedade simbólica, os significados que sofremos em nossa trajetória. Cada cicatriz conta uma história.
Como ficam marcadas - no corpo físico ou na mente - as cicatrizes têm uma materialidade. Mas não são exatamente metáforas. Ao contrário, nossas cicatrizes ligam-se profundamente às feridas, e, como os sintomas, são máscaras que ocultam e revelam a identidade daquilo que nos feriu. Elas são narrativas que não se vêem livres do mote original. São, portanto, metonímias.
As metonímias são figuras que ampliam significados, mas que de alguma forma mantém-se ligadas, seja por extensão ou pertencimento, ao mote de origem da narrativa. Por isso, cicatrizes nos fazem lembrar. Elas mantém-nos presos à origem do ataque, à causa do insulto.
Como personagens, devemos muito a nossas cicatrizes. Elas são nosso argumento. Se as tentamos eliminar - com uma cirurgia, por exemplo - calaremos o aedo (cantor cego que recitava poemas em espaços públicos na antiguidade grega), mas nos condenaremos a rememorar os mitos que julgávamos apagados.
quinta-feira
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